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A VERDADE E A CONSTRUÇÃO DA PAZ


                                                 Joviniano Soares de Carvalho Neto


Estou aqui como representante do Grupo Tortura Nunca Mais Bahia - GTNM e do Comitê Baiano pela Verdade e, assim, ao enfrentar o tema – “A Verdade e a Construção da Paz” - decidi iniciar pelo conceito de Verdade, para, a partir dele, considerar de que modo ele pode contribuir para a construção da paz. Qual é o nosso conceito, a nossa opinião sobre o que é a verdade. Como responderíamos a pergunta de Pilatos a Jesus, - O que é a Verdade? Para iniciar, vamos colocar alguns conceitos a partir das nossas raízes ocidentais e cristãs.

Para os gregos – e nos gregos está a origem do modo de pensar do Ocidente - LETHE é esquecimento e ALETHEIA, a Verdade, é a negação do esquecimento.  Isto é, acrescentemos, relembrar as coisas como realmente aconteceram.  Para nós, do CBV, o objetivo do Comitê Nacional da Verdade - CNV é, exatamente, reconstruir o que realmente aconteceu, de violação de Direitos Humanos (assassinatos, torturas, desaparecimentos forçados), especialmente no período da Ditadura Militar.

Temos, nas falas e nos textos em nome do CBV, feito referências a frases bíblicas - a nossa civilização também tem uma origem judaica cristã. Utilizamos a primeira parte de um provérbio “quem diz a verdade, manifesta a justiça” (provérbio, 12, 17) que, em antiga tradução, era escrito também como quem diz o que bem sabe manifesta a justiça. A segunda parte do provérbio afirma que “mas o que mente é uma testemunha enganadora” . Aqui a Verdade é o testemunho correto do que aconteceu e seu contrário é o falso testemunho, a mentira, utilizada para enganar. Utilizamos, também, texto do Apostolo João – Conhecereis a Verdade e a Verdade vos Libertará (João, 14).

Com a ressalva de que, no caso, para João, a Verdade que Jesus revelava era o próprio Deus, porque, acrescentemos, através dele se conheceria Deus, e o caminho para o homem alcançar o sentido e a plenitude da vida.  Jesus seria o Caminho, a Verdade e a Vida.

A Verdade, assim, seria a concordância do homem com a sua própria natureza, com sua vocação.  E a sua vocação seria a fraternidade (todos são irmãos perante Deus), o serviço aos outros, a Vida harmoniosa e em paz porque sem dominações, opressões.  Ressalvamos que, utilizamos este conceito de um modo analógico e secular e adotamos, operacionalmente, um conceito mais restrito – Verdade como a correspondência entre a realidade e a sua representação, as falas, o testemunho sobre ela. Sabendo que a correspondência total, a apreensão de um fato e um objeto, nunca é total; é sempre aproximativa, marcada por concepções cientificas, filosóficas e religiosas.  Mas, que existe uma base factícia, concreta, irredutível.


Sabemos, entretanto, que, sobre o mesmo fato constatado, pode-se chegar a posições diferentes sobre o que é verdade. Um exemplo é avaliação do que é Política. Temos 46 anos de ensino de Ciência Política, e durante anos fiz uma “pegadinha” com os alunos, pedindo que dissessem o que, para eles, era a Política.

1 – A arte do bem comum ou a arte de defender interesses pessoais ou de
      Grupos;
2 – Instrumento de libertação dos homens ou de dominação;
3 – A arte de servir aos homens ou de se servir deles;
4 – A guerra por outros meios ou negociação e construção da paz?  

É uma pegadinha, porque a política concreta, real, pode ser, e tem sido, as duas coisas. Para meus alunos dávamos duas respostas:

A política é a arte de conduzir os homens para objetivos tornados coletivos. O modo de tornar os objetivos coletivos e os próprios objetivos variam.
Escolhemos a política como um modo de servir ao bem comum, libertar os homens das opressões, permitir a todos realizar suas potencialidades, construir consensos sobre o que é justo, aquilo a que cada um tem direito e, a partir daí, negociar e construir a paz.

Mas, esta visão de política, de que consideramos a boa política é uma opção filosófica, ideológica. Se acreditássemos na desigualdade estrutural dos homens; que existem alguns destinados a dominar e outros a serem dominados, que o mundo é dos espertos, que tem direito de enganar os otários; que, do mesmo modo que, conforme Clausewitz falou, “a guerra é a política por outros meios”, se deve considerar a política como guerra por outros meios, faríamos um outro tipo de política. Um tipo de política que tem sido feito com sucesso e está, inclusive, entranhada na nossa cultura.

Para nós, que acreditamos que a verdade é que os homens têm igual natureza, direitos e dignidade; que o sonho mais profundo de cada homem é realizar seu potencial; que a dominação marca, traumatiza, os dominadores e os dominados, os torturadores e os torturados, que a dominação e a exploração só se mantém pela capacidade de enganar os dominados sobre seus reais interesses, afirmar esta verdade tem não só a capacidade de libertar os homens, como de fazer justiça e construir a paz, porque não pode haver verdadeira paz sem justiça.

Ao se falar em verdadeira paz devemos primeiro dizer o que ela não é. Uma verdadeira paz não é apenas a ausência da guerra, ainda que a ausência da guerra já seja um avanço na coexistência humana. Muitos dos conceitos (e do vocabulário) utilizados na guerra e na política são similares e tem como base a ideia do conflito, do confronto, da luta como necessária para o sucesso, a vitória, a ocupação de espaço, o alcance dos objetivos, a derrota dos inimigos ou, até, como necessária e preliminar para a negociação de uma coexistência pacifica, ainda que instável.

Aqui, cabe um posicionamento sobre o conflito. Consideramos que o conflito é o motor da historia dos homens, que o enfrentamento e a superação dos conflitos é importante para o amadurecimento individual. Sempre haverá conflitos de idéias, interesses, visões. Mais ainda, consideramos que o conflito pode ser um elemento da construção da paz. A democracia é um regime no qual o conflito é considerado legitimo. Um regime no qual o conflito ocorre dentro de regras públicas, conhecidas e aceitas pelos participantes, no qual o, discordante não é visto como inimigo a exterminar ou a subjugar, mas como adversário a vencer e, se possível, convencer, mas que o vencido reconhece que sua derrota ocorreu dentro de um jogo legitimo.

A democracia implica aceitar o direito a diferença, a divergência de interesses e que, a partir destas diferenças se pode negociar um acordo para a sociedade funcionar. A partir do alcance dos princípios de democracia, podemos imaginar homens livres, iguais, participantes, bem representados e solidários, o que prefiguraria uma sociedade onde os homens respeitam os direitos dos outros e podem conviver em paz. Para isto, é necessário mudar a cultura inclusive no modo como se constrói a paz. É antigo, vem dos Romanos, a frase “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Parte do pressuposto de que se você não tiver condições de se defender, lhe farão guerra e você será derrotado, escravizado.

Uma das explicações de porque o período de “guerra fria” entre os povos capitalistas ocidentais e a antiga URSS não se transformou em guerra total foi o equilíbrio de forças, a convicção de que, em uma guerra nuclear, cada lado poderia destruir o outro. Foi o que se chamou equilíbrio do terror, atômico no caso. O que, não impediu que muitas guerras fossem realizadas e estimuladas na periferia dos sistemas. A Guerra do Vietnã, aliás uma guerra justa pala emancipação nacional, foi o exemplo maior destes conflitos. No caso da América Latina, a concepção da “guerra fria” fundamentou a elaboração da Doutrina da Segurança Nacional a concepção de uma guerra total contra o “inimigo interno”, dentro do qual se incluíam comunistas, socialistas, nacionalistas, democratas, oposicionistas de vários tipos, e também os sindicatos e os movimentos que lutavam por mudanças sociais, enfim a maioria do povo que poderia ser manipulado pelos comunistas, populistas, demagogos. As Ditaduras, inclusive a Ditadura Militar Brasileira, se consideravam um guerra contra o comunismo, uma guerra “suja”, na qual valiam todos os meios e onde o povo era suspeito.

A gravidade das violações neste período foi um das razões pelas quais o povo brasileiro valorizou a defesa dos Direitos Humanos e a Democracia. Nós, hoje continuamos esta luta pelos Direitos Humanos, pela Democracia e pela paz. Não é tão simples, entretanto. Nós sempre dizemos aos alunos que, a partir da minha filosofia, de minha ideologia, nós devíamos respeitar os direitos dos outros, porque somos iguais em direitos, somos irmãos por sermos todos filhos de Deus. Mas, que, na pratica, o respeito de um grupo pelos direitos dos outros, decorre do medo de retaliação. A palavra TALIA, significa corte, evoca a imagem da espada. Retaliar é devolver o golpe. E, durante anos, temos ensinado que o modo de garantir o direito é aumentar o poder dos grupos marginalizados, diminuir a desigualdade, de forças, de poder que é a causa social maior da violência, do desrespeito aos Direitos Humanos. É verdade e vamos continuar dizendo isto. É útil, mas não é suficiente para construir uma verdadeira cultura da paz.

Afinal, como podemos construir uma verdadeira cultura da paz? Como podemos vencer a cultura da violência, da morte, que se baseia no medo do outro?

Enfrentando as causas da violência e do medo desde a formação na família, na escola, nas relações do trabalho. Canalizar, civilizando, as pulsões que consideramos negativas para uma visão de homem, na qual a diversidade é considerada positiva, modo de enriquecimento, e deve ser respeitada; que todos tem dignidade e direitos, que a colaboração constrói mais que a divisão, que os homens (e as mulheres) devem viver em harmonia com a natureza, com os outros, e, especialmente, consigo mesmo.

Paz é equilíbrio, harmonia, comunhão, capacidade de executar a solidariedade. É com a verdade que podemos enfrentar a desigualdade, o medo, a mentira. O primeiro alicerce, a primeira base, para a construção da paz é a VERDADE.  

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